terça-feira, 7 de julho de 2015

Rosas

Rosas como teias derivam das janelas
Beijando a manhã,
O mocho, o lírio e o corpo acordam
Trajando um passo apressado no jardim dos silêncios,
Tudo o que me rodeia
A teatralizar, esculpindo o verso,
Letras de paz rompem no rosto como ouvidos em segundos de prece,
No jardim do momento em que se olha duas faces agonizando
No desejo, no deserto de si mesmos,
A pirâmide do asfalto ergue o sonho
Que insinua vento ao passar o húmido suspiro
De nada dizer como um segredo de livro exausto
Na cabeceira da cama que se arrasta na ambição de luz
E olhos que choram futuro,
Os pés são frios nos lençóis que exalam um perfume de alfazema,
São muitos desunidos ais,
São muitas as mágoas que me adormecem os sentidos
De Sol que não escurece o dia
Que como roda traz-me o sonho de ser noite
Tudo o que recordo.

Meu Corpo

Meu corpo a três dimensões de planos lunares vigentes e ocidentes,
Intempestivos no acaso do soco que me cala a voz,
Tenho o incidente de bater na porta gasto de subir escadas eternas em pedaços 
Como esta nuvem que nada em céu,
Nada o pente e uma navalha no gesto,
Deriva a madeira do barco no macio do chão
E os macacos deliram nas jaulas abertas ao ar comprimido
Do soalho que estala da casa da multidão cega de olhos nús,
Ainda o mundo no respirar frio do deslizar de rosto,
No fogo embaciado de si mesmo
Ao pranto de aias de mosteiros e motins de presos como outra era
De dormir assuntos de aulas gastas,
A maçã derrete a árvore na saliência projetada de sombra
Que arrefece o exame preso no tempo de lembrar tudo o que esqueço
Ao recordar de isto como se sorrisse observando o noturno pássaro
Que dança a chuva de adeus
E um filme na órbita do punhal
Enterrado ao âmago de palavra eficaz e precisa de acertar o peito que mexe
No cálido voo de máquina de mosquito que enche o rio de sonho e sabor de medo
Que estuda o silêncio escondido por detrás da cabeça que repete o braço de mimetismo
Aberto à luz de sempre.

Grito de Multidão

Faz-me falta como sentisse que não me faz falta
Esta imagem decadente,
Este estado inquieto,
A suave distância de presságio como uma carta
Ou uma lua de risos em tardes de cores afuniladas em verso,
A maneira secreta de ouvir a imagem parada do futuro
Que em nós se mexe
Como voo de águia nos penhascos de alma
No irreal, no texto semi-frio,
Na nota de pena suicida,
Em vagões de rodas de mar azul pálido,
Refrescos em vãos de escada
A sorver os assuntos.
É um caminho demente em torno da luz
Que respira o suor,
O corpo, o umbigo,
Esta esperança de olhos turvos,
A madrugada de xaile
Que dança nas mulheres acesas ao grito de multidão que se perde.

Não Ser Eu

Adeus, despeço o sentido de adeus,
Entrego-me emoção nua de desejo de fim,
No cinzento de moradia, na planta, na ilusão,
Ainda a incompreensão, sei de tudo o que me resta,
Não, ainda falta a luz aumentando o pensamento,
Até quando o sonho que não alcanço
E bêbado de faces e dança e musica
E actores e desenraimento
E soluços e dores,
Tanto o que carrego quando olho no céu
A leitura de fechar os olhos e parar,
Quero o preciso, o atual, o clean,
A magia falece o sonho de mais do mesmo
De novo e entretanto espero livros,
Espero a madrugada,
O medicamento da alma ressuscita o crente
E eu desmaio em ondas que afogam a certeza
De não ter sido na vida verdadeiramente eu.

Cimento

O vazio da imensidão como nada 
Que respira no diverso de cinco dedos,
As chagas, o nariz calvo, 
A manhã de luz que chove na palavra cenário de luta,
Ri-me de ti como pressentimento, como sábio, 
Dolorido em versos delirantes na nuvem que ondeia Aparentemente como mago,
A nota carmesim na boca como o cheiro de emprestar o céu nos bolsos de orvalho,
Arranha a cama, tudo nosso verso,
Assim que respiro o concreto de ser,
O cimento no sangue rente à palavra de medo,
Falo baixo como se absorvesse as silabas,
Ainda o ritmo da consoante de outrora que esburaca o nervo,
Somente eu irreal e frenético como manto, como mente,
As marés, os óculos junto do nariz,
A frase constrói o barco,
Assimétrico corpo,
A perfeição é um momento frio e gasto.

Tempo

É lento um século,
Passos de dor, solstício de vento,
Alegoria fantasma em dia cinzento
A letra de rosto carpindo um eterno adeus,
Demoro no gesto, é dura a imagem de céu
Na ambição de aguentar o nada de si mesmo
Que por mim deixa de existir
Como tempo fugisse de espaço
De buscar a frequência de ler
O desengano de apagamento,
A leitura pobre como silêncio,
A estátua mímica de emoções
Como fio de prumo, novelo de existir
Em verbos de raiz de sono
Sem estilo de corpo,
Apenas olhar isto que foge de assunto
No barco que se afasta de dentro de onda
Que rema impaciências
No vão tempo fugitivo que não consigo alcançar.

Aparente

Respondo a emoção na aparência,
A centésima vez na miragem, a consciência,
Nada me trás o meu perfil,
Nada é igual ou talvez, não me lembro de mim,
Nunca me vi,
Um tiro de nós,
Irritado por não trazer a surpresa,
Se canto ou senão,
Tenho-me em vida exausto,
No cume maior que me condensa,
A roupa nua em gritos,
Tatuagem que rompe o frio,
Mais de mim se não me sei igual,
Já papel e desenho,
A luxuria de imaginar,
A sofreguidão de rir como completos
De cidade e e tempestade
E sempre ilusão de trazer esta melancolia
Enjeitada neste corpo desabrigado.