sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Andar

Frenético e melancólico jeito de andar pelas ruas desertas de ócio 
No Inverno hesitante e irregular do nosso pensamento,
A face levantada no esforço de contemplar a paisagem que se despe
Aos passos trémulos, andrajosos e semibreves de emoção vaga em trova feita de silencioso desafio.
O processo como animal corpo e o uivo irracional, tosco e errático
Na manhã da alma que reside em objectos que se completam como um jogo.
A carne, o rasto, o faro, irritante astro do céu,
É macio o plano chão que caminho nas nuvens do papel pardo e surdo do momento de desfiguração,
Traz o ignorante sentido de dever, de missão cumprida no rosto
Ao aceno trocista, ao calmo e plácido desalinho do ócio,
De futurismo embevecido, do olfacto lento e um estranho riso corado em longos oceanos.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Enigma

É irreal a passagem ao ritmo,
As palavras abandonam-se como secreto delírio em céu ausente,
As horas passam lentas ou falsas como riso louco,
Quanto custa o enredo de perder simetrias de ousar o sonho,
Em trajetos de ironia ou simular a ciência fria de abandono,
Nisto que resta, o drama ou comédia, a ilustração,
O jornal lento, a janela dolente ao conteúdo que irradia luz
E conceitos como sombras ténues
Que decifram o código que faz a história
Como profetas em simbioses de luz,
De dizer isto ou aquilo ou algo esquecido
Que deciframos ao rasurar em muros de passar os olhos
Que rodeiam o quotidiano igual em falas de ombros embaciados
No cambiante de roupa e manhã igual a tantas outras
Como jogo enigma ou reconhecer a alma parada.

Ritual

O negro invade ao de leve a calma,
É pesado o festim, o horizonte, a nuvem,
Andrajoso clima de cimento e faces planas como riscos nas folhas de árvore,
Em breve a ciência de fugir, em breve somos nós a paisagem,
Descer o rio, sentir a tempestade, vestir o fato rasgado,
Fazer sinais em relevo nos lençóis da manhã,
Porque faz frio crescer e descrever e entontecer
E tudo cantado em pautas que não vemos
Pois estamos em união no tempo que se desfaz no grito.
Abrir a janela, ver com consoantes e vogais e pássaros de corda como sonho
Que embevecidos de maresia professamos nossa alegria de ritual diário.

Ao Vento

Ao vento, longe e perto,
Ofegante e sistemático como prado de ondas que param junto de mim,
Laivos de robustez e idiotia que foge rente aos pés,
Nada é infinito, nada pára o tempo e a casual fuga de sons milimétricos que cismam a união,
Mas entender o plano e a superfície e o acaso diminui a alma
E enredos e trâmites e carapaças e animais marinhos vêm aproximando-se mesmo lentos de rastos breves na pradaria do sonho,
Tentando o físico, a calma, a paciência e o enigma como plantas na varanda do espaço que abranda o ritmo,
Carros e fábricas, palavras simétricas e pesadas caem no lento café
E acende-se o sentir e a música imita ambientes de murmúrio e bafio semi-lento e estático como um barco perdido na memória,
Cálculo de sinais emigrantes de sentido que resmungam ao ouvido.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Voar

Em pleno desejo de voar, de estender o corpo,
Erguer a estátua indizível ao suspiro de força animal,
Heis-me neutro e pluma ou irreal como sonho,
Toca-me o rasto, a passagem de ser outro,
Como um rio lento ou contraste de faces planas
Na paisagem que adormece no meu colo infantil,
É um manto de estrelas a maga superfície de ler,
Ainda o enredo de cetim manso e rente que escurece em cor escura feita de silêncios
Como reconhecer o faro que se distancia no mimetismo de cidade corpo
Ou alma trémula na sirene de planicie de afagos e palavras que se derretem em dor,
A pétala inicia o conforto e cheira a maresia a manhã,
O tempo morto enredo de segredos e falas mansas
Aprende o vício de mãos em pensamento de luz ténue
De sorrir ou evitar o chamamento de instintos mórbidos,
Tomar café e perder mãos agasalhadas em frio de tremer
Como fala estonteante, a cor rude de aprender a mudez.

Futuro

O futuro encarcerado em vozes e máscaras, em pele, nervos, sentidos, 
A visão de estudo rude, 
Processo em silêncio e mácula,
A treva irreal que encerra a peça em frenético desatino
Como um deslumbramento ou idiotia trivial, desencanto
Ou leitura de enganos, quando pouco ou muito se equivalem,
A subida na escala que cai no precipício,
A luxúria casual, a alma e seus vários planos,
Andar fugindo, fatigado de ventos e ferozes assuntos
Que calam a passagem do tempo, a fraqueza e a aspereza,
O conforto que dói, isto que nada acalma,
Resistir no conteúdo e dormindo na história, o jogo das palavras,
Contando gestos, a preguiça de acordar,
A idade que escapa, o acto ou desato,
O café que ainda lembro,
O Inverno que descubro lento ou teatral de crescer,
O toque na perna, o piano residual que ouço ao infinito de me perder,
O palco da palavra que conversa e o encantamento de ouvir a árvore e suas folhas por dentro,
A planície da descoberta,
Roupas a um canto do quarto ou convés e bafio,
O folclore diário, o riso e seus derivados, um grito, um copo na estrada, um baloiço,
Um drama ou folhetim ou a calma de evitar,
A ciência da escolha ou o momento neutro de casulo
Que encerra o capítulo de estudar olhos atentos num livro de almas
Que por vezes faz o corpo respirar ou perceber que nunca estamos sós
No início e fim de acabar.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A Verdade

A verdade é um enigma que sempre racionalizamos.
Mas porém sempre fugimos dela,
Há um magnetismo compulsivo ou omnipresente ou convalescente que nos obriga a ocultar,
A transgredir ou mentir, pois as contradições são a face visível do ser.
Posso ler a mentira ou o sonho porque o registo cruel me obriga a isso,
Há ambição no oculto, no faz de conta
E por vezes a isso se chama arte.
Mesmo em código o processo é semelhante pois as imagens fundem-se nesta linguagem
E assim supomos ou percebemos ou filtramos a mensagem subliminar ou não no aspecto a que nos concerne,
A imagem veste adornos e é simbiótica no assunto,
Pois é ela que veste o sonho e nos deixa voar.