segunda-feira, 18 de julho de 2011
Diário
São sete da manhã, já é dia,
As pessoas apressadas andam para chegar aos empregos a horas,
Eu tenho o emprego da sabedoria,
De transformar as palavras em rimas sonoras.
Não tenho salário, nem patrão,
A escrita é uma paixão.
Admiro quem passa nove horas num escritório,
E depois para casa vem, para o dormitório.
Não têm expressão nas caras,
Muito sérios e carrancudos,
Ganham dinheiro que é como para o agricultor a sua seara,
Têm marido ou mulher e filhos.
Eu tenho o ponteiro dos minutos, das horas que passam,
Tenho a chuva, o sol e o frio,
Ouço a minha oração dos dias, a minha canção.
Uma leve melodia assobio.
Sobrevivente
Na estrada da imaginação já me perdi,
Deixei que o ambiente tomasse conta de mim,
Deixei que pessoas me ferissem e sucumbi.
Tudo não passou de circunstância ruim.
Já estive muito doente,
Mas curei-me, segui em frente,
Não soube os anos aproveitar,
Quantos anos vivi como naufrago em frente ao mar.
Mas apesar do sarro da vida
Aprendi e curei a minha ferida,
Sou sobrevivente de maus tempos,
Mas ainda poderei viver bons momentos.
O Autocarro
Gosto de autocarros, de ver gente a sair e a entrar,
Do senhor que se levanta para a senhora idosa se sentar.
Gosto da diversidade de raças,
De sentir o calor humano das massas.
E apanho o autocarro e passeio,
Vou percorrendo Lisboa vendo pela vidraça a paisagem,
E se o autocarro muito tempo demora logo vem o meu anseio,
Mas quando vou de onde vivo até ao centro da cidade aprecio a viagem.
Também há o metropolitano,
Mas não gosto de lugares fechados, com janelas para o cinzento,
Gosto de me sentar num lugar e ficar como comum soberano,
Sento-me e fico a apreciar o fugaz momento.
O Senhor Doutor
O Senhor Doutor gosta de ser assim tratado,
Só Senhor é pouco para o seu vocabulário.
Toda a gente na repartição o trata por Senhor doutor Augusto,
Sou colega desse senhor e às vezes ouço conversas sobre ele e escuto.
O Senhor Doutor Augusto tem um anel de comprometido,
Alguns colegas já viram a rapariga, bela moça,
Mas o Augusto que é doutor é muito feio e descaído,
E todos dele fazem troça.
A rapariga tem a quarta classe e trabalha numa escola como contina,
Mora numas águas furtadas de um prédio e trata o seu noivo por Senhor doutor,
Mas o Augusto é muito sovina,
Nem lhe compra uma flor.
A noiva quando o beija faz cara feia,
O noivo está completamente apaixonado,
Quer pedi-la em casamento no teatro, na plateia.
Surge o momento e pede, mas ela recusa, está apaixonada por um soldado.
A Felicidade
Prometo que te serei fiel,
Não queiras saber o abecê
E se chorares dou-te um lenço de papel.
Não queiras saber o final,
O suspence é o que faz alimentar a ilusão,
Prometo ser imparcial,
Mas sou adepto da abstracção.
Não me perguntes se sou feliz,
A felicidade é um conceito muito abrangente,
Sou eterno aprendiz,
A felicidade é imortal e omnipotente.
Não me perguntes como estou,
Às vezes a raiva flui como fel,
Outras vezes sou tempestade que amainou
E às vezes sou como folha branca de papel.
Reconstrói
Este sentimento que permanece
Que manchou com nódoas o meu casaco
Foi como me dessem um maço de tabaco
Para eu fumar e ver a cinza a desvanecer-se.
Acordo de manhã,
Faço a barba ao espelho,
O rosto vincado, vermelho,
Visto a minha camisa azul marinho
E vou pela rua do suor do destino.
Vou delirante e ensimesmado,
Tomo o meu café para ficar acordado.
Planejo, construo mapas mentais
E não me importo com a minha sorte,
O que não mata deixa mais forte.
E o dia é para ser vivido em pleno,
Pintar os muros e as ruas de vários tons,
E colher os frutos bons.
Separar o trigo do joio,
E o que estragares reconstrói.
domingo, 17 de julho de 2011
A Prostituta
A Nádia é uma mulher da vida.
De noite vai engatar para o Intendente.
Para alguns é uma mulher de alma perdida,
Mas ela não liga, é uma profissional,
Tanto vai com um velho como com um adolescente.
Tem 45 anos e nunca esteve em nenhum estabelecimento prisional.
Nádia tem um homem que cuida de si, é o seu amante,
Garante a sua segurança e fica com uma percentagem do dinheiro.
É um homem alto, encorpado, galante,
Vive com ela e é galo do seu poleiro.
Passa as noites na rua ou em bares
E lá engata um tarado ou um homem casado,
Mas o que ela prefere são militares,
Avia o freguês e ele vai para casa mais aliviado.
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