terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Amor a Deus

A sombra da vontade residual
Ainda presente e ausente,
Pois é vão o que desejo
E o que sinto é apenas acessório
Num mundo carnívoro de sensações, de imagens
Que passam e não lembram de se recordar,
O assunto não se define,
É mero instrumento condutor em palavras, ação
Que mora nos corpos despidos, que vestem qualquer coisa,
Não sei, mas a noção de nulidade persiste,
Rostos inanimados, cão, gato e espelho de impressões,
De repente há uma coisa ou algo que mobiliza o sentimento,
Mas esquece ao que vem
E a cegueira mobiliza-me,
É um cântico negro da manhã que nasce
Que foge em aleluias, amens vários,
É nisto que Deus existe
E busco eternamente o grande amor que há em si.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Atento

Atento em som de maré cheia,
Areia de onda, temporal de chuva,
Barco à deriva que perdeu o sentido,
A orientação, o norte,
A nota musical de piano subtil
É hora dolorosa e que se apartou de sentir,
Magia sem ilusão,
Letra, crucifixo, oração e dor.
Há manhãs que sobram, ausência
E eu que vivo já sem viver,
Eu que já não sei contar histórias à identidade
E regresso ao habitual, ao comum
Sem nada.
Quando sinto a morte em cena de filme
Que é a minha vida
Acendo o sofrimento, a mortalha de fé,
Verso de cegueira, razão que tapa os olhos
Que já viram toda a miséria da existência
A olhar o enredo de futuro que resiste a tudo.

Não

Perder-me na vasta e lânguida paisagem do homem que sofre,
Que chora a sua hora de tristeza agarrado a um canto da sala,
Só em tons de murmúrio que se prende do seu peito tosco,
Como é ausente e distraído nesse leve chorar de nada ter,
Apenas sentir o relógio a sucumbir,
Como tudo é nulo e lento,
Inconsciente,
Como quando se perdoa a existência
Por haver subtração de vozes que em silêncio o puxam
Para o real, para o imanente,
Mas a ausência de tudo escapa ao que observo,
As vozes adensam-se como horário de maior trânsito
E não desculpo este enegrecer
Que é conflito,
É tudo o que não pode ser,
Mas amanhã é o dia de ajustar as contas com o Infinito
E, então, deixo ao homem as contas não declaradas ao legal,
Ao científico, ao marginal, ao escurecer
A minha conta de anos em que fui santo sem o saber.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Adeus

Sim, é hora de me afastar,
De ir embora como animal escorraçado,
Que pressente perigo,
Fugir, porque não?
Se tanto já me rejeitaram,
Se tanto que já me habituei,
É apenas nova madrugada, dia, noite.
É tanto escuro, 
Tantas cinzas em vogais de desespero,
Letras em uníssono dizem adeus,
Não me despeço, para quê, 
Já me fere o mórbido sentir,
Se passado é o que vejo em memória doente,
O momento é triste,
Mera decoração de mentira.
E o sentimento, o verso, o entardecer.
Vou-me embora como o vento gelado da manhã
Que corta o amor, o desejo, o controlo,
O justo, o injusto, tudo se funde
E conservo-me no saber,
No que sei e sinto
Que um dia talvez sinta o valor de ser o que sou,
É talvez Deus que fala comigo em desmaio de luz,
Desilusão de realidade que recebo em sonho,
Adeus.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Demora

Se quero o que não tenho
E já não acompanho a demora,
Ansiedade de estátua nocturna que repousa em horizonte da manhã,
Sou eu que venho caminhando, vagamente e me persigo em delírio,
Não me lembro muito bem como, 
Dor de êxtase em assunto mórbido,
Tráfico de corpos que não amam,
Solidariedade num maço de tabaco,
Há discursos na televisão e não me lembro do real.
Como é engraçado o frio que veste roupa
E despe o senso comum.
Não descubro o acontecimento,
O relógio do imaginário insiste em perder o que já não é visual,
Não é nada.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Recordação

Amor, não olhes ainda,
O escuro não me deixa ir sem uma luz na claridade da manhã,
Vejo só a tua sombra,
Em mim uma cruz.

Sei que a emoção acalmou
E a vasta recordação é o meu futuro.
Encosto-me em paredes,
Tomo cafés, fumo cigarros
E devagarinho a tua memória
Como sensação a tocar a sentença
Do que me espera.
Despeço-me, peço perdão, auxílio de ti,
Memória, palidez, surdina de rosto,
Lágrima, 
Desilusão que vagueia distante nos meus passos.

Sonolência

Encanto de figura que me olha,
Me vê como sou, sem mais nem menos,
Somente eu que mostro o meu ser.
Eu não me sei de cor,
Em mim um acontecer que não domino,
Não vejo imagens ao espelho,
Tudo é cego no meu ver,
Tateio a emoção tão longe de mim
E desapareço em noite,
Ofusca a luz, o brilho, a ilusão,
Certeza de dúvida,
Imaginação de delírio,
Mãos sangrentas em meus olhos inocentes de razão,
Um silêncio que me cerca, mente, desnível, estradas azuis,
Objetos de segredo, pedra de cimento que seguro,
Vício de me conhecer, 
A roupa veste a calma de segundos
E, então, abandono o sono e deixo de me reconhecer.