sexta-feira, 19 de junho de 2015

Olhar Parado

A impaciência do olhar parado,
Aguarda instruções de ser dia,
Ser sinal que chora,
A palavra sem sentido
Porque não existe no que pensamos,
A mórbida curiosidade de Sol
É a voz dos tempos,
A glória de habitar a imagem,
A acção de guarda chuvas,
O planeta não sorri
No acto de dor queimada,
Labirintos desabrigados
Encenação doentia, calada e ausente no grito contido,
Ainda o segredo da caixa de musica da bailarina cega,
O poeta cuspindo,
A viúva que morre todos os dias,
A palavra encenação de código
Como leques destituídos de carne tresloucada
No instante em que adormeço a vida.

Frio Demente

Hoje deriva o nada,
Fogo de pardais e um lenço,
Amanhã a gaivota prende a asa no sonho diluído,
Desisto da calma em rostos de ir dentro de mim,
Regresso a um torso, uma vaga retumbância,
Um acorde de náufrago de cetim marinho e ténue,
Ainda existo nas letras como um ninho
E um caminho que empurra a minha força que resiste
Em tempos de costuras e medicamentos
Como um pêssego que trouxe no bolso,
A merenda num dia de Sol,
Calmo o olfacto que respira a maré que incomoda,
Acaricio o rosto de fim de viagem,
Tantas feridas que não sinto,
Tanta palidez no toque,
Que frio demente isto que sinto.

Desilusão

Infeliz desilusão convalescente,
Nasce o grito na face,
Em ondas desiguais, campos, imagens de frio,
O riso é pálido e sôfrego,
Mastigo vogais, sofro o álcool destilado numa lágrima,
A janela desunida é um animal de raiva
Nesta tarde que suspira letras e cores
Que são um abecedário de crianças de óculos
Resmungando a vida deitada,
Subi ao conceito que cai pela montanha
No precipício de nuvem de almas,
Sempre a melancolia que recordo
Como este encolher de ombros,
Nesta paz de minutos morna e sufocante
De erguer o verso que como alfaiate
Costurando impaciências
De corpos estrelas
E corpos demorados
Com pedras que andam como castelo construído
Na minha mente que serena
Ao vento de imaginação num enredo
De praia e mundo.

A Casa

A casa move-se como um circuito,
A casa tem árvores e um ramo de jasmim,
Em fronteiras de morte o objecto labareda
Acena como esquece cinza
Que afaga o chão de mar,
Acalma espírito, ainda mar,
Ainda me afogo no vento,
Há transtorno em cavar o assunto, escasseia no arroz
De refeição da casa,
Arranho a asa convalescente num arrepio,
Tanto e nada como olhos pintados,
Emigro em momentos de estar em todo o lado,
A casa mexe-se no tato rugoso da parede,
A rapariga toca na porta da morada a seguir ao rosto
Derrotado,
Num pano, num dedo,
Um germe de horror na porta, na janela,
Na palavra passe do encenador da casa
Faz silêncio.

Janelas

Rosas como teias derivam das janelas
Beijando a manhã,
O mocho, o lírio e o corpo acordam
Trajando um passo apressado no jardim dos silêncios,
Tudo o que me rodeia
A teatralizar, esculpindo o verso,
Letras de paz rompem no rosto como ouvidos em segundos de prece,
No jardim do momento em que se olha duas faces agonizando
No desejo, no deserto de si mesmos,
A pirâmide do asfalto ergue o sonho
Que insinua vento ao passar o húmido suspiro
De nada dizer como um segredo de livro exausto
Na cabeceira da cama que se arrasta na ambição de luz
E olhos que choram futuro,
Os pés são frios nos lençóis que exalam um perfume de alfazema,
São muitos desunidos ais,
São muitas as mágoas que me adormecem os sentidos
De Sol que não escurece o dia
Que como roda traz-me o sonho de ser noite
Tudo o que recordo.

Faz-me Falta

Faz-me falta como sentisse que não me faz falta
Esta imagem decadente,
Este estado inquieto,
A suave distância de presságio como uma carta
Ou uma lua de risos em tardes de cores afuniladas em verso,
A maneira secreta de ouvir a imagem parada do futuro
Que em nós se mexe
Como voo de águia nos penhascos de alma
No irreal, no texto semi-frio,
Na nota de pena suicida,
Em vagões de rodas de mar azul pálido,
Refrescos em vãos de escada
A sorver os assuntos.
É um caminho demente em torno da luz
Que respira o suor,
O corpo, o umbigo,
Esta esperança de olhos turvos,
A madrugada de xaile
Que dança nas mulheres acesas ao grito de multidão que se perde.

Perfeição

O vazio da imensidão como nada 
Que respira no diverso de cinco dedos,
As chagas, o nariz calvo, 
A manhã de luz que chove na palavra cenário de luta,
Ri-me de ti como pressentimento, como sábio, 
Dolorido em versos delirantes na nuvem que ondeia Aparentemente como mago,
A nota carmesim na boca como o cheiro de emprestar o céu nos bolsos de orvalho,
Arranha a cama, tudo nosso verso,
Assim que respiro o concreto de ser,
O cimento no sangue rente à palavra de medo,
Falo baixo como se absorvesse as silabas,
Ainda o ritmo da consoante de outrora que esburaca o nervo,
Somente eu irreal e frenético como manto, como mente,
As marés, os óculos junto do nariz,
A frase constrói o barco,
Assimétrico corpo,
A perfeição é um momento frio e gasto.