domingo, 17 de julho de 2011

Dicotomia


Não tenho o condão de me descrever,
Se tento, não me sinto identificado.
Não sei qualificar o meu sofrer
Pois num dia tenho asas e sei voar e noutros sou ser flagelado.

Olho a imensa paisagem e tento descrever o que vejo,
Mas faltam-me palavras, não sou ser contemplativo.
Se sei voar, por vezes também rastejo,
Intenso e grandioso e outras vezes depressivo.

Há como que uma dicotomia no meu ser,
Sou tímido e reservado mas ousado e excêntrico também.
Apagado, a mitigar uma dor ou centelha a arder,
Dou-me generoso às pessoas, mas, por vezes, dou o meu desdém.

Há uma força incutida no meu peito
Que tem tristeza, desolação e gargalhadas e sorrisos vários,
Com estes vou vivendo a meu jeito,
São conceitos, verdades, ideias que resistem no meu calvário.


sábado, 16 de julho de 2011

O poema

Quando se escreve um sentido poema
Transpira o suave aroma de alfazema.
O verso é o sal e a pimenta dos dias
Que faz degustar as estrofes como apuradas iguarias .

O poeta com parcas palavras transmite o sublime,
E não estando presente, conta-nos coisas da sua alma,
Faz com que o prazer ou sofrer rime,
O seu pensamento é oração, conversa, tranquilidade e calma.

O poema, soneto ou canção
Embalam docemente os nossos sentimentos
E, mesmo que nos sintamos doentes, esse momento é são.
As nossas mágoas, doenças do coração sofrem um fortalecimento.

O poema é infinito tal como Deus,
Tem um espírito que fala com entidades terrestres e divinas.
Os poemas não pertencem a ninguém, são meus e teus,
Têm o som de jornal na voz matinal de ardina.

A Mulher

No jardim do sonho
Sou amante,
Um raio de luz vem-me acordar,
De olhos semicerrados vejo uma forma ao longe,
É uma linda mulher.

Caminho para a figura.
Cada vez mais longe estou.
A luz tornou-se escura,
Mas ainda vejo a bonita mulher no dia que ainda não findou.

Caminho a passos largos,
Quero alcançá-la.
Tenho a vaga noção que ela pode ser a mulher da minha vida,
Com ela a vida torna-se-ia mais comprida.
E eu sem luz que me alumie,
Corro para chegar mais perto.
Ofegante e a transpirar
Não olho para trás,
Tenho um longo caminho a trilhar.

Quando vou finalmente conhecer tal figura
Um demónio me aparece
E diz-me que como ela há muitas no mundo e que ainda não chegou a minha hora.
Blasfemo e digo: "vai te embora satanás!"
Mas a mulher ao ver-me
Foge sem deixar rasto.
No caminho está um bilhete que diz:
"O teu caminho é longo,
Cura as tuas mágoas, sara as tuas feridas,
Que quando o tempo chegar serei a tua prometida".

A Flor do meu Drama

A flor do meu drama
Surge quando visto pijama
Fico sem sono na cama
Com pensar nublado sem saber quem me ama.

Gostaria de viver um intenso amor,
Com cenas de sexo intenso,
Na minha face há um leve rubor.
Mas a minha timidez faz que tudo fique em suspenso.

Há pessoas que conseguem seduzir,
Conquistar a sua amada,
Eu amuo e esboço um sorrir,
Sem resposta, observo uma figura esbelta e calada.

A história de Romeu e Julieta é cúmulo de paixão
O amor que termina em morte.
Eu morto ando sem amor e sem solução,
A minha vida é um fado sem mágica sorte.

Longe vão os tempos de paixão louca
Uma carícia que durava uma eternidade
A ânsia fremente de beijar uma boca
Revivo tudo isto agora com uma sentida saudade.


Deixei de lado as ilusões passageiras do amor
O tédio e o peso da idade já não me dão calor
Visto o pijama, deito-me e embrulho-me no meu áspero cobertor.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Os Assassinos


Ainda lembro a noite do meu perecer,
Era noite, havia pessoas e cumplicidade no ar,
Eu, ausente e presente no meu mundo de cor neutra.
Aceitei o jogo cego que se me apresentou.
De um trago bebi de um copo o esquecimento e foi como um punhal dilacerasse a minha alma.
Bebi o veneno letal e depois houve rituais de folclore disfarçado de opulência, dançares e questionares do que é puro e sadio.
E questionaram o meu nome e disseram os deles como se renascesse ali uma nova identidade que perdi para sempre.
Depois houve enganos e frases tontas,
Ditos jocosos a humilhar a minha nova condição de ser alheio a tudo e todos.
Eu zonzo da música e da inocência que resvalava em som de zumbidos e cabelos soltos a dizerem que não e olhares distantes que se tornavam próximos...
Os nomes, quem sou eu?
Tudo num misto de nevoeiro denso.
Sentei-me perto de uma curva de estrada ficando a observar os carros que se afastavam...
A noite escura e eu lívido sem noção do que era noite e que havia estrelas e que havia céu...
Eles partiram eu fiquei a digerir o veneno que pouco a pouco foi fazendo subtilmente o seu efeito.
O desprezo, a humilhação, os dias que passavam e eu cada vez mais díspar da realidade.
Nesse dia chorei, lágrimas de dias e anos.
Foi a noite cruel dos assassinos.

Actor

Se eu desaparecesse para sempre
E não voltasse jamais,
Não sei, no presente, qual seria a minha reacção.
A existência,
O que eu sou e fui, numa cova aberta no chão.
E acabasse causa e efeito,
A aniquilação dos sentimentos,
Só carne morta,
O tempo e espaço sem contexto.
Nada, só a saudade e pesar aos restantes.

No presente,
Desejo o irrealizável, o bem estar,
O sono tranquilo e o leve acordar,
E com pássaros esvoaçantes, perto da janela, a chilrear.

A letargia dos dias é algo que se assemelha à morte física.
O mesmo deixar ir, o corpo vai, a mente acompanha,
Mas o que a mente pede o corpo não pode dar.

Quero que o espectáculo acabe,
Que se feche o pano,
E que se acabem as palmas,
Que vá tudo para casa,
Para os seus mundos de fantasia e cor,
Que eu não tenho nada a mostrar ou a dizer.
E eu acabe de vez o teatro,
A estúpida performance de divagação diletante
Em que sou actor sem pose ou amor próprio.

O teatro não é mau mas não me pertence
O actor que mostra gestos e palavras não sou eu,
O encenador não me soube representar,
E eu sempre à deriva hei-de ficar...

De que serve a arte quando tudo é pó e opaco?
Fica a sensação de desperdício,
Pois o belo não o é quando cá dentro tudo é solidão,
Sentimento que não obedece,
O riso desfalece,
O sonho desaparece.

Resta uma pessoa sem adereços,
Nu e sem nada a dizer,
Num espectáculo esgotado e ansioso por risos e choros.

Envergonhado, digo que não há espectáculo,
A medo digo que tudo não passa de uma fábula,
O actor sentiu-se mal e assim vai continuar,
Que saiam ordeiros para suas casas,
Que neste corpo geme a dor e não há qualquer sorriso,
Só permanecem a desilusão e o triste olvido.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Folha em Branco

O poeta olha a folha em branco,
Balbucia algumas palavras em som oco,
Finge sentimentos ardentes,
As mão imitam frases ao vento,
E sofre tanto para criar rimas e estrofes com sentimento.

De repente toda uma trama se constrói,
A amada que espera numa praia deserta pelo seu herói.
O Sol queima, a areia voa em círculos,
A amada que, na imaginação do poeta,
Tanto pode estar na praia como em outros sítios.

O poeta assim decide e o leitor obedece,
O leitor pode estar num ambiente de chuva e neve
Mas é o Sol da praia que o aquece.

A folha em branco vai acumulando sábios dizeres,
Rimas e métricas fervorosas.
O poeta guia o leitor nos seus literários prazeres
E é o seu momento de solidão que lhe dita frases ansiosas.

Mas a inspiração é traiçoeira,
A folha em branco, ao escrever-se,
Pode tornar-se vulgar e corriqueira.
O leitor passa para outra folha,
E a poesia que podia comover tanto
É ilusão, frustação e pobre canto.

A amada não sofre como devia,
O amado tem por ela um sentir sem suspence
E o poema que poderia ser arte e sabedoria
É apenas algo que não nos convence.