domingo, 17 de julho de 2011
O Suicídio
O Gato Maltês
Anda o sapo no charco a nadar,
A cegonha vai passeando.
O camponês anda no campo a sachar,
Enquanto o gato da velha senhora o vai observando.
O sapo coaxa no seu charco,
A cegonha bate com o bico fazendo barulho,
O camponês grita porque o almoço é parco,
O gato mia à velha senhora, ele é o seu orgulho.
O gato maltês é carinhoso, chama-se Pompom,
A Dona Inês trata-o como se um filho tratasse,
E o gato responde com um rom-rom.
A velha senhora é uma octogenária com posses e com a sua classe.
O gato, no seu instinto, rouba a comida ao camponês.
O pobre homem ao ver o saque vai atrás do gato para o bater.
A Dona Inês ao ver a caricata cena, abre a porta ao gato maltês.
O camponês ralha com a velha senhora porque o seu almoço o gato fez desaparecer.
"Mas todos os problemas têm solução", diz a senhora,
"Entre, sente-se e coma comigo um almoço que preparei e dá para duas pessoas",
O camponês, então, responde: "Aceito de bom grado, senhora Doutora".
A dona Inês serviu amêijoas à bulhão pato e o camponês depois de almoçar, retorquiu: "estavam muito boas".
O Nascimento
Cântico do Desespero
Este é um cântico do desespero, do sórdido, do ultrage,
Pois eu não sei quem sou ou o que faço.
Sou um ser que não reage
Preso que estou no meu ilusório cansaço.
Perdido na imensidão do mundo
Vagabundo,
Porque não sou um mortal comum?
Chego à conclusão que sou mais um rodeado de milhões de pessoas.
Agora que vejo as outras pessoas pela janela do mundo
Perco a fala e o ouvir,
Sou sempre o que chega em segundo,
Deixei-me pelo delírio possuir.
Em pleno Verão tenho frio de me sentir carente,
Tenho a angústia de ter o aparente como companheiro de alma.
Se ao menos fosse consistente...
Vivo as horas e dias com uma sórdida calma.
Não há flores no meu caminho, só pó de estrada e chuva.
Só ouço ruídos, sons desconexos sem sentido,
Como pessoa com miopia que vê tudo turvo,
Pelo tempo abatido.
Acabei por ceder ao tempo, esse substantivo que tem uma imensa força,
Pois o calendário é ditado com o nascimento de Cristo.
O meu tempo é fuga aos tigres pela corça,
O meu calendário é um mero registo.
Desejo
A Dança
Vozes negras cantando versos de magia,
Dançando nas miragens da inconsistência,
Serpenteando as coxas e as mãos em sintonia,
Inconsciente ia eu ao som da melodia.
A abundância de corpos que se abanavam,
As luzes a piscar nas suas ambivalências,
Os espelhos reflectiam imagens de deformação,
A pista de dança era um circulo de aparências.
Olhos esbugalhados, carnes que se abanam,
Música rouca e húmida que os ouvidos escutam,
A dança assemelha-se a uma luta,
Há gestos, mãos, pernas que se degladiam.
Uns observam, outros fazem da dança a sua canção.
Há decotes ousados, mãos que tocam,
Há bebida a jorros, amantes perdidos,
Eu calmo e sereno continuo na minha dança de infeliz solidão.
A Missa
Não por me sentir obrigado,