domingo, 17 de julho de 2011

O Suicídio

O senhor Jacinto é um homem sem emprego,
É casado com a Dona Marta que não pode trabalhar porque tem dois filhos pequenos,
Vive do rendimento da Segurança Social e para pagar as suas contas é um desassossego.
Vai cultivando umas verduras e árvores de frutos nos seus terrenos.

A mulher sofre de depressão pós parto.
O homem é quem trata dos dois filhos pequeninos.
O Senhor Jacinto é mãe, pai e enfermeiro e diz que está farto.
A Dona Marta pergunta: "Qual vai ser o nosso destino?"

A pensão da Segurança Social não dá para tudo
E o Senhor Jacinto esforça-se por arranjar emprego, mas já tem uma certa idade,
Insiste com a mulher para ficar bem de saúde e que retome o estudo,
Mas a Dona Marta está muito doente, é um grave problema de insanidade.

Certo dia o Senhor Jacinto depara-se com a sua mulher morta,
Chama a ambulância, mas já nada há a fazer, morreu de overdose de comprimidos,
Diz a todos que foi o Diabo que lhes veio bater à porta.
Nos dias seguintes deu os filhos pequenos para adopção e ficou a viver
da parca pensão e dos terreno.
Os filhos e a mulher nunca foram esquecidos.

O Gato Maltês


Anda o sapo no charco a nadar,

A cegonha vai passeando.

O camponês anda no campo a sachar,

Enquanto o gato da velha senhora o vai observando.


O sapo coaxa no seu charco,

A cegonha bate com o bico fazendo barulho,

O camponês grita porque o almoço é parco,

O gato mia à velha senhora, ele é o seu orgulho.


O gato maltês é carinhoso, chama-se Pompom,

A Dona Inês trata-o como se um filho tratasse,

E o gato responde com um rom-rom.

A velha senhora é uma octogenária com posses e com a sua classe.


O gato, no seu instinto, rouba a comida ao camponês.

O pobre homem ao ver o saque vai atrás do gato para o bater.

A Dona Inês ao ver a caricata cena, abre a porta ao gato maltês.

O camponês ralha com a velha senhora porque o seu almoço o gato fez desaparecer.


"Mas todos os problemas têm solução", diz a senhora,

"Entre, sente-se e coma comigo um almoço que preparei e dá para duas pessoas",

O camponês, então, responde: "Aceito de bom grado, senhora Doutora".

A dona Inês serviu amêijoas à bulhão pato e o camponês depois de almoçar, retorquiu: "estavam muito boas".

O Nascimento


O ambiente é de Verão ensolarado.
O pai do filho que vai nascer bebe copos de vinho tinto na taberna,
Faz nove meses que é casado.
A mulher em casa afaga a barriga materna.

O pai bebe e sonha com um filho que lhe siga as pisadas,
Vai aprender o ofício de ferreiro tal como o seu pai o ensinou.
A mãe, grávida de oito meses e meio, faz malha para juntar ao enxoval de roupas dadas.
O pai, Gaspar, deixou a taberna e a casa chegou.

A mulher, Magda, já tem o jantar na mesa,
O Gaspar pergunta a Magda se sente bem,
A mulher diz que sim, na sua subtileza,
De repente sente que vai ter o filho e o marido fica num vai-vem.

Chamam as parteiras e todos vêm ver,
O Gaspar espera na sala pelo nascimento do seu filho,
Num instante ouve o chorar, o pai vai vê-lo e todo ele é um envaidecer,
Decidem que se vai chamar Gaspar, tal como o pai, e nos seus olhos nasceu um novo brilho.

Cântico do Desespero


Este é um cântico do desespero, do sórdido, do ultrage,
Pois eu não sei quem sou ou o que faço.
Sou um ser que não reage
Preso que estou no meu ilusório cansaço.

Perdido na imensidão do mundo
Vagabundo,
Porque não sou um mortal comum?
Chego à conclusão que sou mais um rodeado de milhões de pessoas.

Agora que vejo as outras pessoas pela janela do mundo
Perco a fala e o ouvir,
Sou sempre o que chega em segundo,
Deixei-me pelo delírio possuir.

Em pleno Verão tenho frio de me sentir carente,
Tenho a angústia de ter o aparente como companheiro de alma.
Se ao menos fosse consistente...
Vivo as horas e dias com uma sórdida calma.

Não há flores no meu caminho, só pó de estrada e chuva.
Só ouço ruídos, sons desconexos sem sentido,
Como pessoa com miopia que vê tudo turvo,
Pelo tempo abatido.
Acabei por ceder ao tempo, esse substantivo que tem uma imensa força,
Pois o calendário é ditado com o nascimento de Cristo.
O meu tempo é fuga aos tigres pela corça,
O meu calendário é um mero registo.


Desejo

Não quero ler o jornal diário,
As notícias do desespero,
O meu corpo pede o extraordinário,
Quero viver o destempero.

Descansar à beira mar,
Apanhar banhos de sol,
Quero o trivial, poder alguém abraçar,
Ouvir o cantar do rouxinol.

Conhecer árvores, plantas, matos, florestas,
Novos países, novas fronteiras, outros horizontes,
Dançar, cantar, rir, ir a festas
Quero, em mim, limar arestas.

Esquecer telemóveis, televisão, publicidade
Computadores, autocarros, o bulício da cidade,
Ver folclore, ir a romarias e festas de aldeia,
Ver o rio, o oceano e banhar-me na maré-cheia.

A Dança

Sons de bombos ritmados com cadência,
Vozes negras cantando versos de magia,
Dançando nas miragens da inconsistência,
Serpenteando as coxas e as mãos em sintonia,
Inconsciente ia eu ao som da melodia.

A abundância de corpos que se abanavam,
As luzes a piscar nas suas ambivalências,
Os espelhos reflectiam imagens de deformação,
A pista de dança era um circulo de aparências.

Olhos esbugalhados, carnes que se abanam,
Música rouca e húmida que os ouvidos escutam,
A dança assemelha-se a uma luta,
Há gestos, mãos, pernas que se degladiam.

Uns observam, outros fazem da dança a sua canção.
Há decotes ousados, mãos que tocam,
Há bebida a jorros, amantes perdidos,
Eu calmo e sereno continuo na minha dança de infeliz solidão.


A Missa

Domingo, fui à missa,
Não por me sentir obrigado,
Apenas dos meus pecados desejei a minha remissa.
Uma voz houve que me guiou e eu assim fui, motivado.

Senti-me parte da comunidade,
Olhei com respeito a igreja e as imagens sagradas,
Saudei os presentes com espiritualidade,
No final tomei a hóstia.

Senti um desejo de me unir a Deus no mistério da fé.
O corpo de Cristo representado naquele pequeno pedaço de massa,
Que de bom agrado no meu espírito recebi
E senti-me honrado e estimado por Deus.

Senti-me não como um ser superior,
Mas um devoto.
Com o secreto dever cumprido
Fui para casa e senti-me protegido.