segunda-feira, 14 de abril de 2014

Eternidade de Meus Medos

Sem cor, sem fronteira,
Poeira de astros, horizontes de sensualidade,
Comungo o teu corpo, sorvo a vida, 
Destruída, estilhaçada.
Esta magia nos dedos, mãos massajando a cabeça,
Alisando o cabelo, pondo ordem nas ideias,
Ordem no alfabeto dos dias,
A miragem dos teus atos são ternura,
Pedaços de olhos turvos, a tua imagem.
Prometo-te, serei teu, ainda que não me entendas,
Ainda que longe estejas,
Desconforto e solidão,
O teu fantasma que afago no conforto da cama,
Lençóis e cobertores, almofada
Que deixo no teu lugar vago,
É mesmo imenso este fulgor,
Ultraje, ousadia, imaginação
Que perpetua a tua pessoa,
Na eternidade dos meus medos. 

Volta a Passar

Subi alto neste destino de nada ter,
A ambição como fogo mortiço,
Agasalho de estorvo,
Ingénuo vício de bem querer.

Em meus passos caminhos doloridos,
Conspiração de memória imaterial,
Infortúnio de remendo,
Desertos despidos e estrofes feitas de intempéries,
Horas de sono e instantes,
É sempre este voltejar, circular, angular,
A mensagem cega, elevador parado entre andares.

A saída nula, mórbida e o desejo de sobretudo regressar,
Nada presta, digo feroz,
Incoerentemente arrasto os pés junto a enredos 
Onde se prostituem as almas vazias, idólatras,
Fim de percurso.

Marinheiro sem eira nem beira,
O mundo é uma ideia
E eu vou acertando flechas em contentores de miséria,
Trazendo ilusões e semeando pistas
Para depois me erguer, perder, achar
No inconsolável sustento da alma que nem sei onde se encontra
E onde a poderei arquivar neste dia que passou, volta sempre a passar.

Sonambolismo

Geralmente assumo palavras e histórias,
Contos da ilusão,
Férias do pensamento, 
Derrotas do imaginário,
Tempestade dos sentimentos doloridos que arrancam do vulgar 
A essência de tudo o que vive ou o que morre,
Tudo me é devolvido em vida.
É como espiral de sopa de letras,
Psicologia amestrada em sonambolismo.
Para mim é sempre final de tarde, 
Mesmo que seja manhã ou noite escura,
O simbólico é o meu peito
Que guarda o imenso amor ainda por dizer,
Intenso assim como que abençoado, santo,
Nesta demanda espiritual em busca de mim mesmo.

Grandioso

Amo-te a ti, gentil momento parado,
Neste rumor de palavras para te dizer que te
Amo-te a ti, neste exacto segundo de sedução,
Neste acto de gratidão.
Amo a sombra da janela, a estrela e a lua,
O dedilhar da harpa, o teu ventre, teu íntimo, teu fundo.
Gosto desta audácia, esta ambição de querer mais que palavras,
Ambiciono o silêncio de todas as madrugadas.
Olhar-te e não dizer nada.
És essencial e distante assim como caneta e papel,
Como imagem que busco em meu coração,
Ode a Deus, santidade,
Alma, pois o que sinto é mais grandioso
Que qualquer mensagem.

Livro

Perguntei a um mecânico se sabia o que era poesia.
Respondeu, veemente, que é o óleo, a gasolina de um automóvel.
Não contente, perguntei a um padeiro o que era poesia.
Disse-me que era o fermento, a farinha do pão de cada dia.
Perguntei, a medo, a um bibliotecário se os poemas têm prazo.
Ele não entendeu a pergunta e passou a outra pessoa.
Requisitei um livro, poesia séria.
Fui para o jardim, sentei-me concentrado e circunspecto.
Li folhas, letras, páginas inteiras, pensei, traduzi os versos, rimas, metáforas, o seu significado, o que me chamou à atenção.
Sei que a poesia é o belo e beleza não tem preço.
Fui para casa, deitei-me e o livro no pensamento.
Desfiz o livro em sono e letargia.
Quando acordei o livro estava no mesmo sítio
Só eu não era o mesmo.

Nunca Encontrar

Memória, cimento, paixão
Ainda por escrever em livros de história,
Delicadeza, murmúrio, encosta de praia,
Pôr de sol, lume de fascínio,
Imaginação...
Tudo é muito pouco quando lembro,
Esqueço e volto a recordar,
O trémulo, imortal e grandioso
Amor por ti.
As palavras, doida vertigem,
Palavras fogem por entre dedos velozes,
As imagens, mapas mentais, desafios,
A inconstância da solidão,
Pautas musicais de silêncios e embaraços,
Escuto amor em copos de whisky,
É talvez a monotonia de Agosto em meu corpo de Inverno
Que veste a cor de delírio e desejo 
De te nunca mais te poder voltar a encontrar.

Entre Seres

É qualquer coisa entre seres,
Na calma e barulho,
Suavemente um barco, 
Não barco não gosto,
Talvez um objeto contundente que fere 
A minha sustentabilidade de ação sempre trémula,
É algo como indefinido, talvez a alma,
Talvez espaço em branco que falta a muitos,
Há tantos pareceres,
Palavras que contradizem palavras 
E assuntos de originalidade nula,
O ritualzinho da tribo
Ou a verdade implícita 
Prenhe de caducidade.
Querem a normalidade, 
Eu quero mais,
A desordem do oceano,
O vento que me ama,
Fico só, não preciso de ninguém,
Basto-me apenas eu,
Sim sou eu.