sexta-feira, 19 de junho de 2015

Século Lento

É lento um século,
Passos de dor, solstício de vento,
Alegoria fantasma em dia cinzento
A letra de rosto carpindo um eterno adeus,
Demoro no gesto, é dura a imagem de céu
Na ambição de aguentar o nada de si mesmo
Que por mim deixa de existir
Como tempo fugisse de espaço
De buscar a frequência de ler
O desengano de apagamento,
A leitura pobre como silêncio,
A estátua mímica de emoções
Como fio de prumo, novelo de existir
Em verbos de raiz de sono
Sem estilo de corpo,
Apenas olhar isto que foge de assunto
No barco que se afasta de dentro de onda
Que rema impaciências
No vão tempo fugitivo que não consigo alcançar.

domingo, 17 de maio de 2015

Olhos de Alma

Somos corpos tristes, pintados no papel de ser gente,
No degredo, no cinzentismo, na ilusão
Caminho os degraus de mimetismo de ontem
E a sorte encarrega-se de sonhar
O que choro contemplando a memória de sofrer como pranto de fonte,
De fronte de calvário,
Os espinhos cobrem o meu manto de treva
E bocejo já a idiotia,
A rotina e retina de coçar a palavra
Amar tantas vezes desenganada,
Tantas vezes me apoiei nos candeeiros
De luz de engano,
Na noite de sono,
De buscar-me no meu arfar
Que encerra a página,
A folha falsificada na letra que treme inconstante
Soprando o meu nome
Que sente o todo eu
Que respira em meu corpo de susto,
Meu amanhã de temporal,
Virtual como uma lágrima
Que cai de meus olhos de alma.

Lixo e Pouco Mais

O calmo entardecer como mentira de um contador de destinos
Vem poisando, devagar, em meu semblante,
Oculto um mistério de ondas
Que rompe o silêncio dos poetas,
O silêncio é a minha mortalha de cigarro,
Encosto-e em muros de peças de barro e antiguidades de mãos de noites de bafio,
Já nada se entorna no sentir que nada valha a pena,
No espelho de vitória a revolta de madrugadas em que corto o cabelo
Um passe de história que não fecha o capítulo,
Talvez finja, talvez não passe o cinzentismo
De mais um cigarro do contador de marés,
Serei o último a rir na decadência de lítio,
Ainda imerso de lodo e olhos com pestanas
Que caem na pedra de olhar o mistério,
Move-se como dança,
Como fumo,
Como filme ou vida que perdi e encontrei e deitei fora,
Lixo e pouco mais.

Teatro das Palavras

Conheço o azar como me lembro da sorte que desconheço,
Sei de emendas e sonetos e canções de serões e bofetadas,
Tenho uma dor de futuro na mágoa de passado
E já traduzi a Constituição para uma língua indígena
E sei de cor os artigos que digo em salas
De pianos de cauda com enfeites de Natal a condizer com a carpete,
Sou fixado em perceber as alíneas e os códigos
Das etiquetas de roupa
Tal como os perfumes e o que escrevo
Poder ser uma mensagem a um nervo óptico
Que percorre o canto do olho até à unha dos dedos,
Quando toco o nariz de me meter à espera
Que o carteiro traga a felicidade
De deixa como teatro de perceber que talvez se mudasse o tema
Dos abecedários me impingissem um papel de carta que entendesse
O frenesim de dizer sim e não ou quando o isqueiro cai
E eu abro a porta vir um pássaro que está numa janela
Me dar os bons dias e me apetece vomitar
Ou se calhar dizer a fala errada no filme do dia
Da sala dos momentos de palavras que rimam com cabelos e sofás.

Espíritos Cansados

Rosto despido de faces e punhais,
A manhã de nuvens cor de cinza embaciadas por um copo de aridez de deserto,
Trago um conto e encanto no faz de conta,
O riso dos enganos,
Talvez ande e corra veloz ou respire o céu de mocho
Que esconde o desejo,
Nada me obriga a ser eu
E eu sou talvez o rosto e o mocho que respira as adversidades
De desenho de areia e praia de romance
De corpos de chumbo
Como poetas da eternidade
Na lembrança que esqueço,
Na inglória sanidade,
A alegria é um fumo que respira no meu peito,
Misto de dor e uma frequência de ritmo de andarilho
Que nada acrescenta,
Pó de amor como loja esotérica de espíritos cansados
Na morte de ousar o sonho.

Lágrima dos Dias

Sou a emoção de pensamento na caravela de momento,
Alegria fugaz, corpo e espaço,
Nada me conduz ao inicio e ao que termina,
A ciência de mudez quotidiana
Nua como pele e sorrir que choro,
Acenar ingénuo e inglório,
Atravessar o cupido de asas de santo
Ao franzir uma sobrancelha,
Nunca fui igual ao que sou,
A pauta das equações na palma da mão,
Lento e atento como punhal,
Dois olhos de choro,
O meu mundo de papel,
Vagueia como barco como corpo desatado,
Sucumbirei no negrume,
Lata de conserva de aprendizes de feiticeiros,
Honesto em minha mentira
De pássaro de horror que se traduz
E se transforma em lágrima dos dias.

Recreio de Pensar

Erguendo o movimento de espadas e espadachim como manhã culta
De originalidade de pássaros e cafés embriagados
Solto a voz de horror, a voz dos poetas, os advérbios de modo,
As plaquetas de sangue, o oxigénio de um beijo,
Ainda não concreto, ainda não me descubro,
Maldizer de dor que revela luz e dor de ciência
Que arrasta o progresso de me erguer novamente
Ao chamamento do amor que empalidece os roseirais de penumbra,
Coro e choro no adeus,
Na força de soprar uma lágrima cansada de chorar
A mesma angústia,
A mesma morte de significado
Que perdi em confétis e noites de riso sério
Como pessoa de animal e animal que
Surge exausto ao recreio de pensar.