sábado, 7 de março de 2015

Profundo Sentir

Oh noite de mágoas de papel,
Noites cálidas que se dissipam no profundo sentir,
Que perfume de estação reina em tua prisão de momentos estáticos,
Que perfeito colar de retina de olhar se cola em mim neste arfar demente 
De pressentir que tudo cabe num já ter sido,
Numa ilusão que de pobreza se enaltece o espírito,
Por ser mais que isto,
Mais que real, mais que andar à deriva,
Mais que costura em boneco esfarrapado,
De beleza que perdura,
De sentir a perfeição do ser que
Escava a tirania, que percorre o gesto de sair,
Ainda a história não é concreta e
De ilusões como castelo de cartas,
A humanidade cai como fonte ou regato de voz que morre nos meus versos,
Espelhos de virtualidade,
A violência do lesbianismo na esteira de morder como calar
Ou no acréscimo de lupa ou chá
O coelho, o chapeleiro e Alice
Fogem para debaixo da mesa
Com medo de encolherem ou falarem com ninguém que ouve vozes pálidas,
No chá uma folha de treva,
As folhas de chá como são horas de erguer a luz
De afinal não haver tempo para correr até ao altar
Onde se benzem os humanos que olharam Alice,
Gesticula o momento de cumprimentar o destino que jaz
No engano de sorriso
Que colho de uma árvore,
Frutos maduros e ervas de assunto
Como um perfeito encolher de ombros
Ao texto que sai de improviso do
Papel de outras eras.

Lágrima dos Dias

Sou a emoção de pensamento na caravela de momento,
Alegria fugaz, corpo e espaço,
Nada me conduz ao inicio e ao que termina,
A ciência de mudez quotidiana
Nua como pele e sorrir que choro,
Acenar ingénuo e inglório,
Atravessar o cupido de asas de santo
Ao franzir uma sobrancelha,
Nunca fui igual ao que sou,
A pauta das equações na palma da mão,
Lento e atento como punhal,
Dois olhos de choro,
O meu mundo de papel,
Vagueia como barco como corpo desatado,
Sucumbirei no negrume,
Lata de conserva de aprendizes de feiticeiros,
Honesto em minha mentira
De pássaro de horror que se traduz
E se transforma em lágrima dos dias.

Poema Nada Diz

Sou só eu, 
Nada mais e somente eu,
Esqueço contrariedades e isto e talvez e assim como emigração de azul
De nuvem de cetim num imenso céu,
Nestas entrelinhas tantas história,
Tantas caravelas cansadas e madeixas descompostas
Na marginalidade de um assobio de infinito,
O poema nada diz,
Sou escritor de emoções que não sentem,
A alegria tatuada em mágoa,
A prenda de envenenamento e sorriso etéreo,
Não sou feliz,
Nada me obriga a cumprir papéis,
Não me pude cumprir,
Não pude ser eu mesmo,
Vou juntando novelos e segredos e degredo,
Nada me trouxe ao lamento senão uma sugestão
E neste amaciar de dias um destino como acaso
De vontade que não sei que ilusão
Transporta.

Símbolo

A magia de símbolo é a metamorfose do sentido 
Que arrisca a forma de tudo ser uma visão de acreditar 
Que faz sentido o verso de enredo que oculta máscaras,
O templo contempla o tempo
E o perfume de cinza num segredo de barro
Talvez ateie o que a percepção não entende,
Sempre o tacto e o presságio e a voz inumana de união,
Já ouso a palavra de fugir ou esconder,
Já cabisbaixo ao conteúdo de eterno aprendiz de imagem cega,
Rio de anos extenso, a memória branda de pele
Como alquimia de palavras esdrúxulas
Num caderno de Verão,
Numa bicicleta de embaraços,
Numa fogueira de alarido ébrio,
Numa cadeira em cadeia serrada
Na face de poeta oculto em embriaguez.

Enfim Vago

Ao ler o que escrevo a morada do mocho,
A luz baça de um livro desbotado,
Um corpo morre,
A energia esgotada por pensar e forçar o inexprimível som de acaso,
Na temperatura de polegada
A imensidão de vento e uma flecha no amor,
Neste embaraço de letras como uma mordaça de tempo de traduzir acasos
Como fados de três cores,
A magia ainda não trouxe a luz,
Ainda não corri em praias de faróis que soluçam a maré lenta dos anos pacificos como naus
Como o que não se diz e se pensa
Como a corsa que foge na bruma,
A trazer a conquista de caçador no peito de leão,
Amor, não alcanço-me,
Nada traduz frutos e espíritos,
A chorar contas e perdões e degredo
De escadas e uma estrada que morre na voz
De abelha e de espinho
De tanto que nada de tudo que enfim vago.

Verso Cansado

O tema é mórbido como negação de diário,
Acho-me por vezes no momento em que toco um nervo,
Na investigação há pássaros e navalhas que luzem como presságio
E no registo cómico talvez encontre o riso que escapa como sinal
Do que me mantém vivo,
Há muito deixei de sentir,
Planícies de emoção quando de mim me desencontrei,
A linha da vida dividida como ardil,
Animais ofegantes de sentidos,
Não trato o que recuso e nesta monotonia
Talvez descubra enfim o repouso que amanhece em decadência,
Apraz a ignomínia,
Soluço no verso cansado,
Quem ousou me profanar talvez pense duas vezes,
Quem de mim ceifou o momento vida talvez olhe na janela
Todos os brinquedos de criança,
A imagética imaterial da cor
É um dedo que cresce como indicador percorrendo maratonas
De viagens ao sono,
Ao ser gente que rompe no sonambulismo de vida que esgota a conversa
E a poesia é a vida desencontrada no que não digo.

Verso Infinito

Deixa-me ser o teu verso infinito,
A ambição de luz,
Caminhar a teu lado, escondido como treva,
Trazer a promessa de beijos na face cansada,
Ser a alquimia de desejo que não se cumpre,
Depois, ser a imagem de nada,
A mortalha que rompe,
O caixão de motivo,
Segredarei o inculto momento de palidez,
O solene canto, a certeza de olhos,
Caminharei até ao fundo da rua em teus desmaios,
Sei-me de cor e sei que alimento estrelas,
O riso é colorido como bola na manhã que trago em meu peito.